

Divergências políticas podem facilitar o cancelamento do F-35 pelo Canadá. A discussão sobre a compra dos F-35A pelo Canadá ganhou um novo capítulo: com as declarações do Embaixador americano no Canadá Pete Hoekstra — “não precisamos do Canadá para nada!”
Nos últimos 10 meses, o primeiro-ministro Mark Carney tem focado parte de seu tempo na revisão da compra de 88 F-35A destinados a substituir os F/A-18 (CF-118) na Royal Canadian Air Force (RCAF).
O debate atual é a mais recente reviravolta na longa saga da substituição dos caças canadenses. Tudo começou em 2010, quando o governo de Stephen Harper decidiu comprar 65 F-35As por cerca de US$ 6,7 bilhões, um plano que Justin Trudeau prometeu cancelar durante a campanha eleitoral de 2015, considerando o contrato de fornecimento exclusivo excessivamente caro.
Ottawa lançou o Projeto de Capacidade de Caça do Futuro em 2017 como uma competição aberta, mas a Dassault desistiu em 2018 devido às limitações impostas pela aliança Five Eyes. A Airbus desistiu em 2019, argumentando que as condições favoreciam a Lockheed Martin, e o Super Hornet da Boeing foi desqualificado em 2021, deixando o F-35 e o Gripen da Saab como finalistas.
Finalmente, em 2022, o Canadá selecionou novamente o F-35, citando a interoperabilidade com o NORAD, os compromissos com a OTAN e os requisitos de defesa do Ártico, e anunciou um plano para adquirir 88 aeronaves avaliadas em aproximadamente US$ 14 bilhões.
Carney ordenou uma revisão da compra dos F-35 em março de 2025, na sequência das ameaças à soberania canadense feitas pelo presidente dos EUA, Donald Trump. Em Março de 2022, o Canadá confirmou o F-35A como seu novo caça. Em 9 de janeiro de 2023, o próximo passo, a confirmação de 88 unidades para a RCAF. Porém, até o momento, o governo federal se comprometeu a comprar apenas 16 F-35A, em um anúncio feito em 9 de outubro de 2025.
Mudanças de valores, questões políticas, técnicas e limites orçamentários deixaram restrito ao primeiro lote. Carney tomará a decisão final sobre a aquisição dos 72 caças furtivos adicionais. O primeiro-ministro precisa considerar diversos fatores ao tomar sua decisão, incluindo o fato de a Força Aérea Real Canadense ter argumentado que o F-35 é superior ao Saab Gripen, a outra aeronave que está sendo considerada em decorrência das ameaças de Trump.

Os defensores do F-35 no Canadá argumentam que a escolha do Gripen colocaria em risco a vida dos pilotos canadenses, supostamente porque eles estariam pilotando uma aeronave menos capaz. E, ao não selecionar o F-35, Carney estaria indo diretamente contra o conselho de seus superiores militares.
O embaixador da discórdia
Neste caldeirão, Pete Hoekstra, o embaixador dos EUA no Canadá, entrou na história. Ao longo de vários meses, Hoekstra lançou uma série de insultos contra os canadenses. Um exemplo típico foi uma entrevista concedida a uma estação de rádio de Montreal em 15 de janeiro de 2026, na qual o embaixador afirmou que os Estados Unidos não precisavam do Canadá para nada.
Em uma entrevista à CBC em 26 de janeiro, Hoekstra alertou os canadenses de que poderiam enfrentar consequências graves caso o governo Carney não comprasse o F-35. Ele afirmou que o acordo conjunto entre EUA e Canadá do NORAD teria que ser alterado, sugerindo que os Gripens não seriam tão “intercambiáveis e interoperáveis” com os F-35 operados pelos EUA. Hoekstra também alertou que os EUA começariam a enviar seus caças F-35 para o espaço aéreo canadense para lidar com quaisquer ameaças percebidas.
Os comentários do embaixador foram recebidos com indignação por alguns canadenses, que interpretaram suas declarações como ameaças. Outros questionaram as afirmações de Hoekstra sobre a necessidade de os EUA e o Canadá possuírem F-35 para defender a América do Norte.
Bill Sweetman, um escritor americano de aviação e autor de um livro sobre o F-35, publicou no X em 26 de janeiro que Hoekstra estava “falando bobagens”.
“O Canadá opera aeronaves diferentes das da Força Aérea dos EUA no NORAD há mais de 40 anos e controla seus jatos por meio de Winnipeg, e a furtividade do F-35 é irrelevante no NORAD porque os bombardeiros russos não possuem radar ar-ar”, escreveu Sweetman, autor de Trillion Dollar Trainwreck: How the F-35 Hollowed Out the US Air Force (Desastre de Um Trilhão de Dólares: Como o F-35 Destruiu a USAF).
Os comentários de Hoekstra, no entanto, fornecem a Carney a cobertura de relações públicas necessária para cancelar o pedido do F-35 e comprar os Gripens. Tal medida poderia ser apresentada ao público canadense como uma resposta do governo liberal às ameaças e intimidações do representante de Trump em Ottawa.
Em 28 de janeiro, o National Post noticiou que o governo liberal estava considerando a compra de um total de 40 caças F-35 e complementando-os com a aquisição de até 80 caças Gripen. Essa decisão resolveria diversos problemas. Os F-35 poderiam ser usados na defesa da América do Norte, dissipando quaisquer preocupações dos EUA sobre a interoperabilidade entre os caças, e os Gripen poderiam ser usados em outras operações.
Questionado sobre os comentários de Hoekstra, o Ministro da Defesa, David McGuinty, manteve sua posição de que nenhuma decisão havia sido tomada sobre a revisão do F-35.
“Obviamente, estamos analisando as questões importantes relacionadas à segurança e soberania do Canadá”, disse McGuinty na quarta-feira. “Temos que considerar fatores como a interoperabilidade, temos que considerar fatores como os benefícios, os benefícios industriais em todo o país, algo que está sendo definido. Portanto, o que está acontecendo agora é que nenhuma decisão final foi tomada e a revisão continua.”
Ariel Pollock, porta-voz da Embaixada dos EUA em Ottawa, afirmou em um e-mail na quarta-feira que, como nenhuma decisão havia sido tomada sobre a situação do F-35, “não faremos comentários. Não vamos comentar rumores.”
Uma frota dividida entre F-35 e Gripen também poderia resolver alguns dos problemas estratégicos apresentados pelo F-35. O Canadá precisaria de atualizações de software dos EUA para continuar operando os caças de fabricação americana. Isso significaria que uma administração americana hostil poderia interromper essas atualizações quando quisesse, tornando os F-35 praticamente obsoletos.
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